Gramática Egípcia Clássica

APRESENTAÇÃO

A língua egípcia média foi falada desde o início do Reino Médio até o início do Reino Novo. Sua gramática era essencialmente idêntica a do egípcio arcaico. Nesse estágio da língua floresceu a literatura egípcia em seus principais géneros: os textos funerários – como o chamado “Texto dos Sarcófagos”; os textos ditos de “Instrução” – diálogos entre mestre e pupilo visando a transmissão de valores sociais e morais; contos – narrativas de aventuras de um herói, enaltecendo o sucesso individual na sociedade e Hinos – textos poéticos de conteúdo religioso louvando deuses ou o rei.
Além da literatura, existem diversos exemplos de textos administrativos e históricos produzidos durante esse estágio da língua. A língua egípcia média sofreu transformações graduais, antes da ruptura que originou a chamada língua neo-egípcia, ou egípcio tardio.
Após o fim de sua existência como língua vernacular (em c.a 1750 a.C), o egípcio médio manteve-se canónico para a escrita hieroglífica monumental dos períodos seguintes. Porém, como não mais se tratava de uma língua “viva”, os escribas dos períodos seguintes tendiam a cometer erros ou modificar alguns aspectos da língua em detrimento de suas línguas contemporâneas ou do alcance de seu conhecimento da língua média, que então era tratada como “clássica”.
Os antigos gregos chamavam as inscrições egípcias de “hieróglifos”. O termo deriva das palavras “sagrado” hieros e “inscrição” glyphos. Essa escrita era principalmente destinada aos templos e túmulos, bem como monumentos públicos. No Egipto essa escrita foi utilizada desde a formação do reino egípcio até o ano 396 d.C.
Hieróglifos podiam ser ricamente desenhados ou esculpidos em alto- ou baixo-relevo e eram posteriormente coloridos. Exemplos dessa escrita podem ser encontrados no interior de câmaras mortuárias, nas fachadas de templos, decorando obeliscos, em estelas, amuletos mágico-funerários e artefactos quotidianos como mobília, utensílios cerâmicos, etc.
Os hieróglifos também foram largamente empregados em sarcófagos e até mesmo em papiros e linho. Quando os hieróglifos não eram trabalhados, mas apenas pintados, era comum sua utilização em uma forma ligeiramente simplificada, conhecida como “Egípcio Cursivo”. Exemplos dessa versão de escrita podem ser encontrados em papiros, utensílios domésticos, etc.

Lição 01: Estrutura da Escrita Egípcia Hieroglífica

Fonogramas Uniliterais

Hieróglifos com o valor fonético de uma única consoante. Como esses hieróglifos possuem o valor fonético equivalente ao de uma letra, variantes dessa lista por vezes recebem o status de um “alfabeto” hieroglífico, embora esta seja uma iniciativa moderna. Ex.:

 

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Fonogramas Biliterais

Hieróglifos cujo valor fonético são uma combinação de duas consoantes. Ex.:

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Fonogramas Triliterais

Hieróglifos cujo valor fonético são uma combinação de três consoantes. Ex.:

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Logogramas (ou ideogramas)

Um hieróglifo egípcio exerce a função de logograma quando este for empregado sozinho para representar literalmente o objecto que retracta. Nesse caso, fazemos então uma “leitura logográfica” do hieróglifo em questão. Uma leitura logográfica é normalmente identificada pela presença de um sinal determinativo em forma de “traço vertical”, que pode ser posicionado abaixo ou após o logograma. Ex.:

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Determinativos (Semagramas)

Determinativo é um hieróglifo normalmente acrescido ao final de uma palavra para melhor informar sobre a classe semântica a qual este pertence. Por funcionar como um marcador ou sinalizador para eventuais casos de ambiguidades, os determinativos também são chamados “semagramas”. Os determinativos são cumulativos e facultativos. Além disso, o valor fonético de um hieróglifo actuando como determinativo deve ser sempre ignorado, e portanto, ele é omisso pela transcrição. Tomemos por exemplo duas (de muitas) possibilidades para se escrever o nome do deus solar Rá

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Complementos Fonéticos

Complementos fonéticos (às vezes chamados “determinativos fonéticos”) são hieróglifos empregados como fonogramas complementares, utilizados de forma facultativa e de efeito prático redundante. O efeito de redundância alcançado pelo complemento fonético é o de auxiliar o leitor a decifrar algum hieróglifo que por ventura lhe seja pouco familiar, além de possuir também um apelo estético. Complementos fonéticos comportam-se de maneira similar aos determinativos. São sempre facultativos e cumulativos, não havendo nem a obrigatoriedade, nem um limite máximo para o seu emprego em qualquer palavra. Os complementos fonéticos devem ser lidos em conjunto com os demais fonogramas, e não em adição a estes, de modo que a transcrição do texto deverá ignorá-los. Ex.:

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Orientação da Leitura

Um texto hieroglífico sempre pode ser escrito em linhas horizontais ou em colunas verticais. Em ambos os casos havia a possibilidade de se escrever os hieróglifos orientados da direita para a esquerda ou vice-versa. Com relação aos textos compostos na vertical, as colunas podem ser lidas a partir da direita ou esquerda, à maneira dos textos em linhas horizontais. Entretanto, colunas com textos hieroglíficos só podem ser lidas a partir do topo, e nunca de baixo para cima. Para sabermos qual é o sentido correcto para a leitura de um determinado texto, normalmente nos orientamos pelos caracteres representativos de figuras de aves, animais e seres humanos. Ex:

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Convenção de “Manuel de Codage” (MdC)

Para facilitar a troca de informações pela internet, surgiu uma convenção especial para transcrever-se os caracteres “tradicionais” das transliterações com o alfabeto latino convencional. Essa é uma convenção simples e que pode ser muito útil ao estudante. Os textos escritos sob o formato MdC possuem uma grande vantagem no quesito prático, já que dispensa a necessidade do uso de fontes especiais para escrita do texto.
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Lição 02: Substantivos

Género e Número

Substantivos egípcios, como os portugueses, podem ser flexionados em género masculino e feminino, não havendo a opção de “género neutro”.
Com relação ao número, surge uma diferença: ao invés de uma simples distinção entre singular e plural, havia na língua egípcia a possibilidade de três números: singular, plural e dual.
As terminações de género e número podem ser resumidas pelo quadro abaixo:

1A-tabela-genero-numero

Singular

Os substantivos egípcios estão a princípio sempre no singular. Para identificar o género de um substantivo, a língua egípcia adicionava a devida terminação ao respectivo radical.

Terminação para masculino singular
Normalmente os substantivos masculinos no singular não possuem terminação. Ocasionalmente há casos em que esses substantivos apresentam uma “consoante fraca”, com a terminação (-j) ou (-w) em seu radical. Mesmo nesses casos essas chamadas “consoantes fracas” eram frequentemente omitidas pelo escriba. Ex.:

1B-singular-masculino

Terminação para feminino singular
Substantivos femininos no singular recebiam invariavelmente a mesma terminação (-.t). Ex.:
1C-singular-feminino

Plural

Para expressarem os casos de flexão de número, era então necessária a inclusão dos devidos sufixos, concordando sempre em género com cada palavra flexionada. Embora o determinativo de plural envolva o número 3 (três), o plural implica que o substantivo contado apresenta-se em uma quantidade superior a 2 (dois).

Terminação para masculino plural
Os substantivos masculinos no plural serão identificados pela triplicação do determinativo, ou por um determinativo próprio para plural. A terminação dos substantivos masculinos no plural será sempre a mesma (-.w). Ex.:

1D-plural-masculino

Terminação para feminino plural
Substantivos femininos no plural combinam as terminações de plural e género feminino. A transcrição da terminação de número deve sempre preceder a de género (-.wt). Ex.:

1E-plural-feminino

Dual

A língua egípcia antiga possuía uma forma específica para determinar casos em que um mesmo substantivo era contado duas vezes. O dual não possui equivalência na língua portuguesa. A terminação de dual também concorda em género com as palavras modificadas.

Terminação para masculino dual
A terminação para masculino dual é -.wj. Porém, a terminação é frequentemente omitida pelo escriba. O dual também pode ser transcrito através da duplicação do respectivo determinativo, bem como através do uso de dois traços oblíquos. Ex.:

1F-dual-masculino

Terminação para feminino dual
A terminação para feminino dual é -.tj. Porém, a terminação é frequentemente omitida pelo escriba. Isso ocorre devido ao facto de que inicialmente a terminação dual feminina era anotada somente com um -.t , em decorrência do hábito em não se anotarem as consoantes fracas”, como o j. Quando ocorrer um caso como esse, há a possibilidade de que a transcrição complemente a informação com o uso de parênteses. Ex:

1G-dual-feminino

Classes Especiais de Substantivos

1 O Falso Plural
Esse é o caso onde um termo possuidor de determinativo de plural é tratado como um singular, e consequentemente não tem sua terminação de plural transcrita. O falso plural ocorre em três situações: substantivos abstractos, colectivos e matérias-primas.

- Substantivos abstractos
O hieróglifo Z2, além de determinar o plural, também podia ser aproveitado apenas como fonograma. No caso do falso-plural o determinativo mantém seu valor fonético /w/, mas a palavra é tratada como singular. Ex.:

2A-falso-plural-abstracto

- Colectivos
Os traços verticais determinativos de plural (Z2) também eram empregados para informar que uma dada palavra referia-se a um grupo, ou colectivo. Nesses casos, ela será tratada como um caso de singular e será transcrita como tal. Assim, o determinativo não será transcrito. Ex.:

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- Matérias-primas, líquidos, cereais
Quando ocorrer uma terminação -.w numa dada palavra nessa categoria, tratar-se-á de uma terminação característica de um singular masculino. Note que o expediente de triplicação do determinativo também é válido nessas situações! Ex.:

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2 Escrita Anormal
Alguns substantivos possuem uma escrita que não obedece a um critério claro. Esses casos normalmente são memorizados. Ex.:

2D-escrita-anormal

Determinação e Indeterminação

Não havia artigos definidos ou indefinidos na língua egípcia clássica. Múltiplas interpretações são possíveis para um dado substantivo. Caberá ao contexto definir a melhor versão para uma tradução. Ex.:

3deteminacao

Substantivos Compostos

- Aposição
Um processo de justaposição simples e não-marcado:

4A-aposicao
- Adjectivos Atributivos
O substantivo modifica-se apenas através do auxílio de adjectivos atributivos (processo analítico).

4B-adjectivos-atributivos
- Conjunções & Disjunções
Para unirmos dois substantivos A e B podemos também recorrer a conectivos. Essas formas podem implicar em uma adição – ou coordenação – (empregando-se a conjunção “e”), ou em uma alternativa – ou disjunção – (empregando-se a conjunção “ou”).

Coordenação não-marcada: AB = “A e B”
A coordenação na língua egípcia média normalmente ocorre por justaposição.

4C-conjuncao-NAO-marcada
Coordenação explícita: A + preposição (junto) com /sobre + B = “A e B”
Existe a possibilidade de que a coordenação venha a ser formalmente indicada (ou “marcada”) com o auxílio das preposições ḥnꜥ “(junto) com” e ḥr “sobre”. A tradução substituirá seu significado literal pela conjunção “e”.

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Disjunção não-marcada: AB = “A ou B”
Caso a disjunção não esteja marcada na frase, a tradução deve inserir a conjunção “ou” para dar sentido à frase.

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Disjunção explícita: AB + “ (isso) é dito” = “A ou B”
Coordenação e disjunção podem ser expressas de forma semelhante, bastando em ambos os casos que se agrupem os substantivos num esquema AB. Para evitar confusão com coordenações, o escriba pode optar por marcar uma disjunção com a expressão r(ꜣ)-pw (lit. “ (isso) é dito”). Dentro do contexto da relação entre os termos AB, a expressão rꜣ-pw é inserida logo após o termo B. Ex.:

4F-disjuncao-explicita

Posse

Na gramática da língua egípcia média existem duas maneiras para a indicação de posse.

Ligação Genitiva Directa: AB = “A (de) B”
Apesar de não haver nenhuma ligação gráfica entre os substantivos A e B, cabe à tradução portuguesa incluir tanto uma contracção para dar sentido ao texto, como providenciar a concordância nominal adequada. Ex.:

5A-genitivo-directo

Ligação Genitiva Indirecta
A forma egípcia de se expressar a posse consiste do emprego dos chamados “adjectivos genitivos”. Estes adjectivos modificam o primeiro termo da relação AB e podem ser traduzidos como “o(s)/ a(s) pertencente(s)”. E flexionam-se segundo o modelo a seguir.
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5C-genitivo-indirecto

Antecipação Honorífica

A “antecipação honorífica”, também chamada “inversão”, “transposição” ou “metathesis” honorífica é na realidade uma forma de ligação genitiva directa, aonde os termos A e B tem suas respectivas posições rearranjadas. A transcrição de um caso de antecipação honorífica, como ocorre com os demais genitivos directos, deve observar a sinalização com um hífen entre os termos A e B. Ex.:

6A-exemplos-antecipacao-honorifica
A inversão honorífica é uma convenção social que obriga o escriba a posicionar à frente qualquer referência escrita a deuses ou faraós. Entenda o procedimento:
6B-tabela-anteci+acao-honorifica

Lição 03: Adjectivos & Preposições

Na língua egípcia média os adjectivos dividem-se em três categorias: primários, secundários e derivados.

  • Adjectivo Primário: ocorre apenas no caso de nb.
  • Adjectivos Secundários: São na realidade formas verbais no particípio. Essa é a principal categoria dos adjectivos egípcios.
  • Adjectivos “nisbas” (ou derivados): derivam de substantivos e preposições.

Adjectivos

Na língua egípcia média os adjectivos dividem-se em três categorias: primários, secundários e derivados.

  • Adjectivo Primário: ocorre apenas no caso de nb.
  • Adjectivos Secundários: São na realidade formas verbais no particípio. Essa é a principal categoria dos adjectivos egípcios.
  • Adjectivos “nisbas” (ou derivados): derivam de substantivos e preposições.

O Adjectivo Primário nb

Aprendemos que nb pode ser traduzido como “senhor”. No entanto, quando a situação não se aplicar propriamente a um título, é comum traduzir-se a palavra como “dono” (= proprietário) do substantivo a ele vinculado. Ex.:

Quando aplicado como adjectivo, nb pode assumir uma conotação de colectivo: todo, qualquer, inteiro, etc.; ou uma função distributiva: cada, cada um(a), qualquer, etc. Nesse caso a forma adjectiva nb declina-se quase da mesma forma que sua contraparte substantiva. Verifique a tabela a seguir:

As terminações feminina e masculina do plural por vezes são dispensadas pelo próprio escriba. Para corrigir a concordância, cabe ao tradutor transliterar a terminação correctamente entre parênteses. Ex.:

Adjectivo Secundário

Os adjectivos mais comuns da gramática egípcia são na realidade formas verbais no particípio.

Ex.:

Adjectivos e determinativos

A leitura de adjectivos pode apresentar certa ambiguidade. Tomemos por exemplo o caso do adjectivo nfr  , que deriva do verbo nfr  (ser bom/ ser belo/ ser perfeito). Como adjectivo, nfr traduz-se literalmente por “bom/ belo/ perfeito”, em referência a lugares, coisas, pessoas, etc. Como adjectivo substantivado, nfr será traduzido como “o que é bom/ o que é belo/ o que é perfeito”. Cabia ao escriba complementar a informação dada pelo adjectivo, através do emprego de um determinativo. Ex.:

O Adjectivo Nisba

“Nisba” (an-nisbah; lit. “a relação”), é um termo emprestado da gramática árabe e que define todo adjectivo derivado de um substantivo ou preposição. Apesar de ser um adjectivo derivado de um substantivo, um nisba ainda pode sofrer nova substantivação. Normalmente o contexto também é o principal artifício a se recorrer para identificarmos um caso de substantivação, uma vez que não há um recurso gráfico específico para identificar essa situação. Ex.:

As terminações de nisba normalmente são ligadas directamente aos respectivos radicais, antes de uma eventual declinação em género e número, conforme os demais adjectivos. Contudo, tenha em mente que as terminações de nisba são sistematicamente ignoradas pelos escribas!

Forma Nisba de Preposições

Segundo a gramática egípcia, as preposições podem transformar-se em adjectivos através do acréscimo de terminações de nisba. Cabe sempre relembrar que qualquer nisba é declinável em género e número!

Nem todas as preposições possuem a sua forma nisba própria. A seguir apresentamos uma lista com a forma nisba (masc. sing.) de algumas das preposições mais frequentes nos textos egípcios. Ex.:

Ex.:

Emprego dos Adjectivos

Os adjectivos egípcios são normalmente empregados para modificar substantivos, tal como ocorre com a língua portuguesa. Nessa situação estes adjectivos egípcios também devem concordar em género e número com o substantivo que estiver a ser modificado.

Ex.:

Adjectivos especiais

§ 1 O substantivo “adjectivado” ky  (outro):

Trata-se de um substantivo que assumiu funções de adjectivo. Observe que a regra de posicionamento na frase não é obedecida no caso desse ‘adjectivo’. Nesse caso o adjectivo vem a preceder o substantivo modificado ao invés de sucedê-lo. Por outro lado, ky deve concordar em género e número com o substantivo que ele modifica, como ocorre com qualquer adjectivo, segundo o esquema abaixo.

Ex.:

§ 2 O adjectivo interrogativo wr (quão grande?)

Existe um único adjectivo interrogativo em egípcio médio: wr (quão grande? > quanto(s)? de que tamanho?). Trata-se na realidade do adjectivo wr aplicado como substantivo. O adjectivo interrogativo wr é empregado em frases nominais como predicado. Ex.:

§ 3 Adjectivos secundários empregados para a expressão de posse

Quando o adjectivo for empregado com esse objectivo ele sofrerá substantivação e integrará uma relação genitiva directa com o substantivo a que se relaciona. Esse substantivo passa então a ser o segundo termo da ordem AB em uma relação genitiva directa. Ex.:

Grau Comparativo

A língua egípcia expressava apenas o grau comparativo de superioridade. Ao invés de dizerem que A era menor que B, eles construiriam a frase informando que B era de facto maior do que A.

Não havia também um grau comparativo de igualdade formal. Este efeito era obtido através de construções utilizando a preposição mj (como) e sua forma nisba mj.tj (igual, similar).

§ 1 Emprego da partícula exclamativa  wj

A língua egípcia pode expressar um grau de comparação através da simples adição de uma partícula wj ao final de um dado adjectivo. Essa partícula é adoptada para transformar uma frase declarativa em uma exclamação. Sua tradução literal é “quão/  quanto”. O efeito alcançado por essa construção é o de um advérbio, denominado na gramática egípcia de “grau comparativo de intensidade”. Ex.:

§ 2 Grau comparativo marcado

Construía-se um grau de comparação entre dois adjectivos modificadores através do emprego da preposição r (para, em direcção de) entre as partes em comparação. Para a língua egípcia  a preposição r nessa situação significava literalmente “com respeito a”, “em relação a”, que será reinterpretada em nossa tradução para o português como “mais (do) que”. Ex.:

Grau Superlativo

Não existia um grau superlativo propriamente dito na língua egípcia. Ele é na realidade uma construção feita a partir da justaposição por ligação genitiva directa (forma não-marcada) ou indirecta (forma marcada) de dois substantivos.

§ 1 Grau Superlativo Não-Marcado

O superlativo pode ser construído através de uma ligação genitiva directa. (AB = A de B). Ex.:

 

§ 2 Grau Superlativo Marcado

a) Marcado pelo adjectivo genitivo n(j)

O superlativo pode ser construído com auxílio de um adjectivo genitivo.

(A n(j) B = A de B). Ex.:

b) Marcado pelo adjectivo nisba jmj

Há também a possibilidade de que construir-se o superlativo com o auxílio do adjectivo nisba jmj “o que encontra-se em”, ou “o que está situado em”, aqui empregado como uma preposição. Nesse caso, por tratar-se de um adjectivo é possível estabelecer o efeito de superlativo entre substantivos distintos entre si.

Ex.:

Preposições

Existem essencialmente dois tipos de preposições: as simples e as compostas. As preposições egípcias ditas “simples” podem ser divididas em dois grupos básicos: as preposições monoconsonantais e as multiconsonantais. Preposições monoconsonantais são aquelas compostas por apenas uma consoante (forte). As preposições multiconsonantais compreendem aquelas compostas por duas consoantes (biconsonantais) e três consoantes (triconsonantais).

O segundo grupo de preposições, as ditas “preposições compostas” consiste na realidade de locuções, ou seja, são combinações de preposições e palavras de diversas classes gramaticais e que exercem a função de uma preposição. A formação dessas locuções prepositivas ocorre principalmente por meio de duas formas:

  • Preposição + substantivo / +  infinitivo verbal  ou  particípio substantivados.

Advérbio + preposição (ou vice-versa).

Preposições Simples Monoconsonantais

As preposições monoconsonantais são um grupo pequeno, de etimologia obscura e composto por apenas três casos. Essas preposições podem ser colocadas na primeira posição em uma frase, sendo também comum o seu emprego na segunda e terceira posições.

Preposições Simples Multiconsonantais

Normalmente as preposições multiconsonantais aparecem acompanhadas de algum determinativo. Tais determinativos aparentemente são decorrentes de um desenvolvimento secundário da língua. Este só veio a ser inserido nos Textos dos Sarcófagos (Reino Médio) e a partir de então seu uso se difundiria apenas ao longo do Reino Novo.

Nos chamados casos de “sentido especializado”, ocorrem certas circunstâncias, segundo as quais essas preposições assumem um valor diferente do usual. Ex.:

Ex.:

Locuções Prepositivas (ou “Preposições Compostas”)

Segundo a gramática da língua portuguesa, uma locução prepositiva é um conjunto de duas ou mais palavras que exercem juntas o valor de uma preposição. A gramática egípcia possui uma forma equivalente, onde uma preposição liga-se a palavras de outras classes gramaticais (ou até mesmo com palavras da mesma classe gramatical) para em seguida comporem preposições ainda mais especializadas.

Por “especializadas” leia-se sempre que são preposições aplicadas apenas em um contexto específico. Nesse caso, as locuções prepositivas são ferramentas extremamente versáteis, ou seja, podem-se criar novas combinações indefinidamente em função de contextos e necessidades próprias. Ex.:


Lição 04: Pronomes

Pronomes são palavras que normalmente combinam-se com nomes, podendo inclusive vir a substituí-los. Na gramática egípcia, tal como ocorre na língua portuguesa, um pronome pode adquirir múltiplas classes, em função do contexto de seu emprego. Assim, os pronomes podem ser substantivos, adjectivos, ou adjuntos.
Em egípcio, os pronomes enquadram-se em quatro categorias gerais:

  • Pronomes pessoais: sufixais, dependentes, independentes (e terminações do estativo, que serão vistos em uma lição futura)
  • Pronomes demonstrativos
  • Pronomes interrogativos
  • Obs.

  • Os pronomes relativos (ou adjectivos relativos) serão estudados futuramente

Pronomes Pessoais

Sufixais
Esses pronomes são normalmente posicionados como sufixo ao fim de uma palavra e consequentemente passam a ser uma parte integrante da mesma. Apenas substantivos, preposições e verbos são passíveis de receber esses sufixos de base pronominal. A primeira pessoa do singular podia ser representada de diferentes formas, de modo a corresponder melhor à natureza do falante em questão (homem comum, nobre, mulher, rei ou deus), ou ao fonograma . Muitas vezes o pronome =j era mesmo omisso nas palavras, uma prática muito frequente no caso de verbos.
Embora alguns pronomes possam de facto ser escritos das duas formas, a transliteração é sempre mantida como uma só. Compare as variantes dos pronomes abaixo:
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Os pronomes sufixais podem actuar como pronomes pessoais rectos e exercer função de sujeito ou predicativo do sujeito, quando combinados com verbos. Ex.:
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Esses mesmos pronomes sufixais podem ser utilizados como pronomes do caso oblíquo (ou objectivo), uma vez que estejam combinados com preposições. Há ainda a possibilidade de utilização dos pronomes sufixais na construção de pronomes possessivos. Basta combiná-los a substantivos. Ex.:
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Os Pronomes Sufixais no Dual

Normalmente os pronomes sufixais do plural são igualmente empregados nos casos de dual. Entretanto, havia duas formas específicas para esse caso, embora essas fossem pouco usadas. Tais variantes são arcaicas e encontradas principalmente nos textos religiosos mais antigos.
O possuidor do nome estando no dual:
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Nesse caso, assume-se que o nome possuído esteja em qualquer género e número. O importante é informar que são dois possuidores de um dado nome. Essa forma dual dos pronomes sufixais é baseada nas em respectivas formas do plural. Ex.:

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O nome possuído estando no dual:
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Essa forma pronominal é empregada quando o nome possuído estiver no dual, e é formada a partir de suas contrapartes do singular. Ela era particularmente frequente em concordância com nomes de partes do corpo no dual. Ex.
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Pronomes Dependentes (ou “enclíticos”)

No estágio inicial da língua egípcia, os pronomes dependentes eram sempre posicionados na segunda posição da frase. Devido a essa regra de posicionamento eles também são tratados por “pronomes enclíticos”.
Em termos gerais, o pronome dependente é construído a partir das formas pronominais sufixais. A 1ª, 2ª e 3ª pessoa masculina do singular então consistem na adição do morfema w ao respectivo pronome sufixal. As contrapartes femininas recebem a adição do morfema m ou n (2ª pessoa) e j (3ª pessoa).
A forma plural dos pronomes dependentes é morfologicamente idêntica à dos pronomes sufixos. O mesmo pode ser dito dos pronomes dependentes no dual. O uso dos pronomes dependentes tornou-se gradualmente restrito, até que por fim eles desapareceriam da gramática tardia e demótica.
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Os pronomes dependentes podiam ser empregados como o objecto de verbos transitivos. Ex.:
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Pronomes Independentes (ou “absolutos”)

Os pronomes pessoais independentes, ou absolutos, não precisam estar ligados a qualquer outra palavra da frase, nem precisam estar limitados a uma posição pré-determinada na frase.
Essas formas equivalem ao caso nominativo dos pronomes pessoais e sempre que essas formas forem empregadas, elas exercerão a função de sujeito da frase e normalmente introduzirão o predicado nominal. Daí prevalece a tendência de tê-los a ocupar a primeira posição em frases de predicado nominal. Normalmente os pronomes independentes são empregados no singular. A sua forma plural tornou-se cada vez menos utilizada a partir do Reino Médio.
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Pronomes independentes podem ser empregados como o sujeito de uma frase nominal de predicado substantivo ou adjectivo. Ex.:
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Formas Arcaicas de Pronomes Independentes

Os pronomes pessoais independentes em sua forma singular possuíam algumas variantes arcaicas ainda em uso pela língua egípcia clássica. Essas reminiscências do estágio arcaico da língua mantiveram-se em uso em textos religiosos, e eram empregadas sobretudo em caso de discurso do rei ou de deuses. Os pronomes masculinos podiam, inclusive, ser empregados em substituição às contrapartes femininas.
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Pronomes Demonstrativos

Série pw, tw, nw
As formas pw, tw, nw são cronologicamente as mais antigas. Durante o Reino Médio ela permaneceu sendo empregada em textos religiosos, tendo seu uso quotidiano sido substituído pela série pn, tn, nn.
As formas do singular (pw, tw) devem ser empregadas após o nome, como os demais adjectivos modificadores. O plural (nw) será sempre posicionado antes do nome, como os demais pronomes, e ainda terá a adição do adjectivo genitivo n(j). Ex.:
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Série pn, tn, nn
As formas demonstrativas pn, tn, nn são mais comuns em egípcio médio e significavam originalmente este(a), estes(as). Para criar um contraste maior entre “este(a)” e “esse(a)/aquele(a)” foram posteriormente introduzidas as formas pf, tf, nf.
As formas do singular (pn, tn) devem ser empregadas após o nome, ao passo que o plural (nn) será sempre posicionado antes do nome, como os demais pronomes, e receberá também o suporte do adjectivo genitivo n(j). Ex.:
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Série pf, tf, nf (pfꜢ, tfꜢ, nfꜢ)
As formas pf, tf, nf (e suas variantes: pfꜢ, tfꜢ, nfꜢ) podem significar esse(a), esses(as), aquele(a), aqueles(as). Essa série foi desenvolvida pela gramática egípcia média para criar um contraste com pn, tn, nn.
As formas do singular (pf, tf, pfꜢ, tfꜢ) são livres para o emprego antes ou após o nome. Entretanto, o plural da série (nf, nfꜢ) será sempre posicionado antes do nome, e terá a adição do adjectivo genitivo n(j). Ex.:
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A Variante pfj, tfj, nfj
A série pf, tf, nf possui uma variante, pfj ,tfj , nfj, desenvolvida durante o Reino Médio. Essa forma, por vezes dita “pejorativa” é de facto empregada como um adjectivo, cujo objectivo normalmente é denegrir o nome modificado.
Entretanto, essas formas somente assumem um teor negativo quando aplicadas a algum nome que implique algum teor de hostilidade: países ou regiões hostis, nomes de inimigos ou adversários, referências ao deus Seth, à serpente Apopis e seres afins, etc.
Quando não estiver aplicado a algum nome que inspire agressividade ou reprovação, essa série é tratada como uma simples forma demonstrativa, sem qualquer teor negativo. As regras de posicionamento dessa variante são as mesmas da série pf, tf, nf. Ex.:
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Série pꜢ, tꜢ, nꜢ
A série pꜢ (o), tꜢ (a), nꜢ (os/as) era originalmente uma forma demonstrativa usada como vocativo. Ex.: O puro (o que é puro); a amada (a que é amada), etc.
Gradativamente essa forma assumiu uma função anafórica, ou seja, passaram a ser empregados em referência ao sujeito previamente mencionado na frase. Esse uso da série culminou com a formação dos primeiros artigos definidos da língua egípcia.
As formas demonstrativas pꜢ, tꜢ, nꜢ podem igualmente significar este(a) daqui, esse(a) daí, aquele(a) de lá, etc. Essa série deve ser integralmente posicionada antes do nome. A forma plural nꜢ deve ser acompanhada do adjectivo genitivo n(j). Ex.:
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Artigos Possessivos

Acredita-se que ao final do Reino Médio as formas demonstrativas pꜢ, tꜢ, nꜢ estavam demasiadamente enfraquecidas na língua falada, dando origem aos primeiros artigos definidos. Nessa transição para o novo estágio da língua egípcia antiga, a forma demonstrativa então sofreu uma reformulação, baseando as novas formas dêicticas na série pꜢ, tꜢ, nꜢ acrescido do sufixo indicador dêictico da 1ª pessoa j.
Assim, na última fase da língua egípcia média e ao longo da língua egípcia tardia o demonstrativo era frequentemente expressado pela série pꜢj, tꜢj, nꜢj. Ex.:

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Essas formas tornaram-se frequentes entre o fim do Reino Médio e início do 2º Período Intermediário. Na frase, essas formas demonstrativas eram posicionadas antes do nome, tal como ditava a regra para suas versões anteriores: pꜢ, tꜢ, nꜢ.
Os artigos demonstrativos concordam em o género e número com nome possuído, enquanto o pronome sufixal concorda em género e número com o possuidor do nome. O artigo demonstrativo do plural também é acompanhado pelo adjectivo genitivo n(j).
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Ex.:

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Formas Demonstrativas e Nomes Compostos

As regras de posicionamento das formas demonstrativas são muito simples. O plural sempre precederá o nome e terá o auxílio do adjectivo genitivo n(j). A maior parte das formas demonstrativas do singular devem ser posicionadas após o nome. Assumindo os casos em que essas formas estejam posicionadas após o nome, devemos observar certas regras para o caso de nomes compostos.

Genitivo Directo
Vimos que o genitivo directo é formado pela justaposição dos nomes A B. Nesse caso a forma demonstrativa do singular será posicionada após a justaposição. Lembre-se que nada pode ficar entre os dois termos de uma relação genitiva directa. A mesma regra vale para as antecipações honoríficas, que nada mais são que caso especiais de genitivo directo. Ex.:
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Genitivo Indirecto
Em genitivos indirectos (A de B), a forma demonstrativa do singular seguirá após o primeiro nome, precedendo respectivo adjectivo genitivo. Em caso de nomes ligados a um sufixo pronominal, o pronome demonstrativo segue após o sufixo. Ex:

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Pronomes Interrogativos

Em egípcio as frases interrogativas são divididas em dois grupos gerais: o das frases cuja respostas implicam uma decisão sim ou não, e as que exigem uma resposta mais complexa.
O primeiro grupo é formado com o acréscimo de uma partícula interrogativa jn, que pode ser combinada a outros elementos, ou mesmo ignorada pelo escriba. O segundo grupo exige o emprego de pronomes interrogativos, ou outras formas interrogativas empregadas como pronomes, tais como o advérbio interrogativo, adjectivos interrogativos e locuções prepositivas com valor interrogativo.

Emprego de Pronomes e Formas Interrogativas

No caso de perguntas que exigem a elaboração de uma resposta mais complexa, torna-se necessária a introdução de formas interrogativas específicas.

Pronome interrogativo m (Quem? O que?)

Essa é a mais básica das formas interrogativas. O pronome interrogativo m comporta-se como um pronome dependente. Em textos religiosos é comum que este venha a seguir um pronome independente. Ex.:

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O pronome interrogativo m é também utilizado na construção de locuções prepositivas que assumem então o valor de um pronome interrogativo. As locuções prepositivas empregadas como pronomes são posicionadas ao final da frase. Alguns exemplos são:

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Ex.:
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Pronome interrogativo jšst, (O que? De que? Com o que?)

Esse pronome interrogativo é empregado quando a pergunta faz referência a coisas. O pronome interrogativo jšst normalmente é combinado com as partículas jrf, (j)rf . Também é possível que esse pronome ocupe a primeira posição da frase, como se fosse um pronome independente.

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O pronome jšst também pode ser combinado com preposições para a construção de locuções prepositivas interrogativas. Essas construções são posicionadas ao final da frase. Ex.:

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Pronome interrogativo jḫ (O que?)

Trata-se se uma variante mais antiga de jšst. Esse pronome também refere-se a coisas e é posicionado ao final da frase.

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Pronome interrogativo p-tr, pw-tr, ptj (Quem? O que?)

Esse pronome interrogativo é composto pela combinação do pronome demonstrativo pw e a partícula tr. Ele comporta-se como um pronome independente, e como tal, normalmente posiciona-se no início da frase.

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Esse pronome também é frequentemente associado à partícula jrf , (j)rf .

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Pronome interrogativo sy, sj (Qual? Quais? O que? Quem? Quando?)

O pronome interrogativo sy, sj será o predicado nominal, quando empregado em conjunto com um nome (substantivo ou adjectivo). Nesse caso, o pronome sempre estará posicionado à frente do nome. Ocasionalmente esse pronome recebe o complemento da partícula e tr. Esse mesmo pronome, quando combinado com um substantivo relacionado a tempo pode ser traduzido como “quando”. Ex.:

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Advérbio interrogativo tnj, ṯnj (Onde? De onde? Para onde?)

Trata-se de facto de um advérbio especializado, cujo emprego ocorre somente em frases interrogativas. Esse advérbio também pode vir a ser complementado pela partícula jrf , (j)rf e tr .

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Adjectivo interrogativo wr

Trata-se do mesmo adjectivo wr (grande), mas em uma rara situação de emprego interrogativo. Esse adjectivo empregado como pronome interrogativo é atestado em frases nominais como predicado.

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